novembro 30, 2021

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60 anos de Grande Sertão: Veredas

60 anos de Grande Sertão: Veredas

Nonada. Letras de livro correm tempo, mas ficam dentro. Não morre, nem há de morrer, Deus esteja. 60 anos, mas ainda moço, que “um rio é sempre sem antiguidade”. Tempo longe, 1956. O homem subiu em cavalo para escrever lida. Livro tão grande. De um nunca visto jeito. Estranho, difícil, pois “tudo que é bonito é absurdo”. História?  estória? Pois seja, desimporta.

Lá se vão seis décadas anos desde que o sertão mineiro ganhou o mundo pela literatura de João Guimarães Rosa. Pensado inicialmente como uma das novelas do livro Corpo de Baile, lançado no mesmo ano de 1956, Grande Sertão: Veredas cresceu, ganhou autonomia e tornou-se um dos mais importantes livros da literatura brasileira e da literatura lusófona.

A importância da obra como um acontecimento artístico se dá pela narrativa da vida sertaneja, que mesmo em seus aspectos mais regionais, ainda são universais; pela trama que ata Riobaldo e Diadorim em um conflito de que expõe a difícil tarefa de viver e seguir seu destino, a luta entre o bem e o mal, a vida e a morte e os amores complicados; e, sobretudo pela língua criada por Guimarães Rosa, com neologismos e inspirações em diversos idiomas, provoca um natural estranhamento, seguido de um encantamento que premia os insistentes.

A professora de Literatura Helissa Oliveira Soares, formada em Letras pela UFG é uma grande entusiasta da obra de Guimarães Rosa e explica a importância da obra: “É fundamental para a literatura brasileira porque, além de tratar de temas fundamentais para a existência humana – como bem e mal, Deus e diabo, feminino e masculino, existência e não-existência, vida e morte, juventude e velhice – também carrega importantes reflexões e expressões do ser brasileiro, da cultura brasileira,” diz ela

A grandiosidade de Grande Sertão: Veredas pode ser exemplificada pelas interpretações, que a abordam sob os mais variados pontos de vista, sem jamais deixar de ressaltar a capacidade e a confiança do autor ao ser inventivo. Extremamente erudito Rosa incorporou em sua obra aspectos das mais diferentes culturas. Disse uma vez que “para estas duas vidas, viver e escrever, um léxico só não é suficiente”

A trama do livro gira em torno do jagunço Riobaldo, também conhecido como Tatarana ou Urutu-Branco, narrador-protagonista do livro. Há na obra dois pontos aos quais o narrador se apega. O primeiro é Diadorim, um também jagunço, com quem Riobaldo estabelece uma relação que se coloca nos limites entre a amizade e o afeto. Diadorim, que na verdade é uma mulher que se traveste de jagunço, é uma das personagens femininas fundamentais do imaginário literário.

O segundo é um pacto com o demônio, estabelecendo uma intertextualidade com a obra Doutor Fausto, de Tomas Mann. A dúvida se o pacto teria se concretizado ou não incomoda o narrador e o leva a questionamentos profundos como a existência do diabo – e, por consequência, de Deus. O trecho que encerra a saga é icônico: “Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.”

Helissa afirma que a travessia do personagem pelo Rio São Francisco é uma metáfora para a sua travessia pela vida. “Essa narrativa não ocorre de maneira linear, se materializa e se reforça na junção de curtas narrativas regionais e folclóricas. Trata-se de uma virada na literatura, que parecia se voltar para o ambiente acadêmico, carregada de intelectualismo. Pode ser considerado um dos maiores romances da literatura brasileira, um livro de grandes ensinamentos e saberes, sem recorrer somente ao saber acadêmico, mas mostrando também que o saber folclórico, popular, se consagra como uma maneira de aprendizado e de formação de um indivíduo.”

Helissa diz que ela mesma é uma leitora que atravessou com certa dificuldade o livro e saiu diferente do outro lado. “Não conseguia passar da página 60. Mas depois que cheguei à página 100, a leitura fluiu consideravelmente. Em minha primeira juventude, a linguagem me ofereceu grandes dificuldades, mas a abordagem do tema amoroso me deixou extremamente perturbada, encantada e envolvida. Foi muito perspicaz da parte de Riobaldo nos mostrar como o amor pode ser múltiplo, fragmentado, assim como é a natureza humana,” conta a professora.

E de leitora, ela se tornou professora das veredas de Guimarães Rosa. “Alguns anos depois, tive que reler para ministrar um curso sobre romance brasileiro, e novas luzes se acenderam. Percebi que aquele romance tão longo, denso e complexo não se limitava a uma leitura única, pois novos aprendizados obtive daquela segunda leitura”. Mais alguns anos depois, Helissa voltou a ministrar a disciplina sobre o romance brasileiro, e Grande Sertão: Veredas entrou novamente para o corpus da disciplina, gerando mais uma leitura da obra. “Nessa terceira leitura, percebi que o que Rosa faz com a linguagem, com os temas e com a estrutura narrativa o eterniza dentre os romancistas da literatura brasileira. Novas luzes se acenderam, novos saberes foram apreendidos e a convicção de que Grande Sertão: Veredas é uma das obras mais importantes da literatura, não só brasileira, mas universal, ficou consistente e sólida em minha consciência,” diz ela.

Travessia.

Manuelzão, um brasileiro

Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, publicados em 1956, foram lançados quatro anos depois de uma famosa viagem do autor pelo interior de Minas Gerais, acompanhando a condução de uma boiada, em 1952. Rosa anotou exaustivamente dados concretos da realidade física e da cultura sertaneja, e esses registros – suas famosas cadernetas de viagem, que atualmente se encontram no Instituto de Estudos Brasileiros da USP – foram utilizados como matéria-prima que o escritor trabalhou esteticamente para compor os livros. As anotações incluíam dados sobre a flora, a fauna e a gente sertaneja, usos, costumes, crenças, linguagem, superstições, versos, anedotas, canções, casos, estórias, enfim, tudo que lhe despertasse algum interesse.

Foram 240 quilômetros percorridos, com estórias que resultaram em uma obra única e ao mesmo tempo universal. Nessa aventura, Guimarães Rosa registrou lugares, palavras, expressões e personagens. Entre tantos vaqueiros que se juntaram à empreitada, um deles foi definitivo para as obras roseanas: Manuelzão.

A cruzada teve origem na Fazenda Sirga, a 60 quilômetros de Andrequicé, distrito de Três Marias (MG), onde Manuelzão viveu seus últimos 20 anos. Dez dias depois, o ponto de chegada foi uma fazenda em Araçaí (MG), município vizinho a Cordisburgo (MG), cidade natal de Guimarães Rosa. A revista Cruzeiro publicou um relato da expedição na reportagem Rosa e seus Vaqueiros, em 21 de junho de 1952. Nas fotos, Manuelzão está entre o grupo. Em sua homenagem, o escritor mineiro escreveu o conto Uma Estória de Amor, do livro Corpo de Baile, que posteriormente foi desmembrado em três volumes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão.

Manuelzão é o protagonista do primeiro volume: após a morte de sua mãe, o vaqueiro resolve atender a um pedido dela para que fosse construída uma capela em suas terras e a obra é inaugurada com uma grande festa. Guimarães Rosa mescla realidade e ficção: assim como o personagem, a capela existe e ao seu lado está o túmulo de sua mãe. Já a festa é romanceada.

Das páginas do conto, Manuelzão se tornou talvez o principal embaixador da obra roseana. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) o homenageou criando o Projeto Manuelzão, destinado à recuperação do Rio das Velhas. O vaqueiro foi a diversos programas de televisão e atuou em uma cena do capítulo inaugural da série Grande Sertão: Veredas, levado ao ar pela Rede Globo em 1985. Morto em 1997, seu enterro mobilizou centenas de pessoas.

Parte desse sucesso é relatado em detalhes pelo jornalista Pedro Fonseca. Sobrinho da última mulher de Manuelzão, ele se afeiçoou ao “tio torto”, como se diz em Andrequicé. Fonseca garante que Uma Estória de Amor é apenas a parte mais evidente da influência do vaqueiro na obra roseana. “Ele permeia toda a obra de Guimarães Rosa. Ele também está em Noites do Sertão e no Grande Sertão: Veredas. O Riobaldo é o Manuelzão, é bem nítido”, analisa Pedro.

Em Andrequicé, Manuelzão é conhecido como o cidadão mais ilustre que viveu no distrito. Em torno dele e de Guimarães Rosa se organiza anualmente a Semana Cultural Festa de Manuelzão, cuja edição de 2016 terminou nesse domingo (17). Famoso contador de casos, o vaqueiro está em fotos nas paredes de praticamente todos os bares do pequeno distrito. “Ele era uma pessoa humilde, contadora de casos. Mesmo a figura dele rodando o mundo, ele não se importava com dinheiro. Se convidavam Manuelzão pra um evento em Brasília e perguntavam quanto ele cobraria, ele respondia: ‘nada, estou indo passear’. Manuelzão deixou um legado para Andrequicé”, diz Márcia Alves, dona de um dos bares que homenageiam o vaqueiro personagem.

 

Guimarães Rosa nas telas e nos palcos

Em 1985, quando das comemorações dos 20 anos da TV Globo, o diretor Walter Avancini recebeu a incubência de produzir uma minissérie especial adaptada da obra-prima de Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas foi gravada ao longo de 90 dias, durante os quais cerca de duas mil pessoas se embrenharam no sertão para reproduzir na TV o universo ficcional de Guimarães Rosa. A equipe de produção se mudou para um lugarejo chamado Paredão de Minas, no distrito de Buritizeiro (MG), onde foi montada a infraestrutura necessária para as gravações e a hospedagem dos profissionais.

A minissérie foi totalmente gravada na locação. E o diretor fez questão de que todos os integrantes da produção visitassem o sertão. Até mesmo o maestro Júlio Medaglia, encarregado da trilha sonora, passou uma semana em Paredão de Minas. No sertão, a equipe consumia, em média, uma tonelada de frutas por semana, um boi por refeição, 13 mil copos de água por jornada de trabalho, oito dúzias de base para maquiagem em uma semana, 50 litros de sangue cenográfico, entre outros números dessa grandeza.

Bruna Lombardi viveu seu melhor momento como atriz com a personagem Diadorim/Reinaldo. E Tony Ramos que emagreceu oito quilos e fez aulas de equitação, rastejamento militar e tiro para viver Riobaldo e emocionou a todos na pele do jagunço. O DVD da minissérie, com 4 discos, está à venda nas livrarias e no site www.somlivre.com.

O livro de Guimarães Rosa já havia sido adaptado para o cinema, em 1964, dirigido por Renato Geraldo Santos Pereira. Sônia Clara viveu Diadorim, e Maurício do Valle, Riboaldo. O teatro goiano também trouxe o universo do sertão para os palcos. Montada este ano, a peça Cara-de-bronze foi extraído do livro Corpo de Baile, publicado há 60 anos. A história se passa em um único dia dentro de um curral de ajunta de bois. Dez vaqueiros conversam sobre o dono da fazenda, o tal Cara-de-bronze, homem poderoso e sábio como Deus, escuro como bronze e feio como o diabo. Um enigma para todos que trabalham para ele.

 Um dicionário para entender Grande Sertão

em já leu as obras do Guimarães Rosa certamente há de concordar que o escritor mineiro era realmente brilhante e que com tantos neologismos, o escritor praticamente criou uma nova variação do português. Existe uma série de teses de mestrado e doutorado sobre as novas palavras de Guimarães, suas origens complexas e seus significados. Foi de um desses trabalhos que surgiu o livro O Léxico de Guimarães Rosa, lançado como livro em 2001, e resultado da coletânea e pesquisa feitas por Nilce Sant’Anna Martins ao longo de dez anos.

O livro, esgotado na editora, mas disponível em sebos on-line, é mais que um dicionário para traduzir as expressões roseanas, o léxico é uma comprovação da genialidade do escritor. Guimarães era um mestre das línguas: dominava diversas – diz-se que Rosa lia em 20 idiomas – e criava seus neologismos a partir de prefixos e sufixos estrangeiros, bem como estruturas do português arcaico e da linguagem popular. Ao todo, são inacreditáveis 8.000 verbetes destrinchados quanto a sua origem e significado.

Só para designar “diabo”, são dezenas de palavras. Não é por menos: uma das grandes inspirações de Rosa são as histórias populares do sertão mineiro, onde a luta entre bem e mal / céu e inferno é um tema recorrente. Mas se engana quem pensa que é impossível ler Guimarães Rosa sem a ajuda do léxico. A intenção do autor era que o significado ficasse atrelado ao contexto.

Como na oralidade, muitas vezes o sentido das palavras fica subentendido pelas frases que a cercam. Além disso, compreender todas as palavras não é obrigatório para captar o sentido de uma história (e qualquer pessoa que estuda línguas estrangeiras sabe muito bem disso). Confira algumas das palavras inventadas presentes em Grande Sertão: Veredas.

  • Circuntristeza: Como a própria palavra sugere, refere-se à “tristeza circundante”
  • Enxadachim: Designa um trabalhador do campo, que luta pela sobrevivência. A palavra reúne “enxada” e “espadachim”
  • Embriagatinhar: A mistura de “embriagado” e “engatinhar” serve para designar uma pessoa que, de tão bêbada, chega a engatinhar
  • Nonada: A famosa primeira palavra do romance é uma corruptela de “não é nada”, que significa uma coisa sem importância
  • Taurophtongo: Significa mugido, sendo a palavra uma junção de dois termos gregos, relativos a touro (táuros) e ao som da sala (phtoggos)
  • Velvo: Adaptação do inglês velvet, que significa “veludo”. Na linguagem de Guimarães Rosa, é o nome dado para uma planta de folhas aveludadas.

 

 

Por Júnior Bueno

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