fevereiro 24, 2020

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Caso de refém em metrô de Salvador alerta para o debate sobre saúde mental e violência

Caso de refém em metrô de Salvador alerta para o debate sobre saúde mental e violência

Um homem armado com um facão manteve refém um passageiro no metrô de Salvador, na tarde de quarta-feira, por duas horas. Ao ser liberada, a vítima informou que o homem teria dito que tem depressão e desejava morrer. O episódio alerta para a importância de trazer ao debate público as questões de saúde mental, em especial quando o sofrimento do paciente acaba levando à violência.

O psiquiatra e diretor clínico da Holiste Psiquiatria, Luiz Fernando Pedroso, salienta que os episódios chamados de surtos não acontecem de uma hora para outra – eles são anunciados paulatinamente.

“Às vezes o doente está sofrendo, retraído, fugindo dos contatos sociais, mas não está incomodando então as pessoas ignoram, não dão atenção àquela pessoa e ao seu sofrimento. Mas, a doença cresce, e ela não suporta ser ignorada”, destaca o psiquiatra.

Ele opina que não se pode subestimar a doença mental, o que é feito muitas vezes em função de estigmas, tabus, preconceitos e falta de conhecimento sobre a gravidade do problema.

“A doença sempre existiu, a diferença é a subestimação que a doença mental ganhou nos dias de hoje. Perde-se tempo demais e não se discute o principal que é a própria patologia. A doença mental mata, tanto o doente, às vezes por suicídio, quanto os outros, em episódios que podem ter um final trágico”, afirma Luiz Fernando.

O surto psicótico é um episódio de desordem da representação da realidade, que pode estar presente em vários transtornos psiquiátricos, oferecendo riscos aos pacientes e a terceiros. Traz como características mais conhecidas os delírios, alucinações e comportamentos desorganizados.

A pergunta que fica é se é possível prevenir um surto e evitar que ele termine em violência. Para o psiquiatra, o desenvolvimento do surto não é totalmente previsível, mas é possível identificar os fatores de risco desde a infância e tomar medidas preventivas.

“A predisposição genética é uma coisa muito importante, boa parte dos transtornos têm componentes hereditários muito fortes. Mas, genética não é destino, é probabilidade. A pessoa pode ou não desenvolver a doença, ela pode ter uma fragilidade prévia, mas vai desenvolver a depender dos gatilhos, do estresse, dos fatores desencadeadores. Mas há pessoas que desenvolvem esses quadros sem gatilhos. Então, é variável. Agora, a doença mental existe também na infância, e um dos sinais mais relevantes é o rendimento escolar, que a gente negligencia muito. Se uma criança tirar notas baixas e repetir de ano, com a baixa qualidade das nossas escolas a gente se acostuma com isso; mas esse pode ser o indicador de que algo não vai bem”, pontua.

Segundo Luiz Fernando, qualquer pessoa pode apresentar um episódio de surto psicótico em algum momento da vida. São vários os motivos que podem levar ao desenvolvimento de um quadro deste tipo; porém, as pessoas que sofrem de estresse intenso, de transtorno bipolar, de transtornos de personalidade do tipo paranóide (paranoia), narcisista, esquizotípica ou borderline, podem ter uma propensão maior. Estes surtos ocorrem, com maior frequência, entre os 20 e 30 anos.

 

Diagnóstico e intervenção

Luiz Fernando enfatiza que a doença mental é multifatorial – com componentes biológicos, psicológicos e sociais, sendo mais eficaz tratá-la com uma abordagem multidisciplinar, principalmente nos casos agudos, nos quais é necessário internar o doente para que receba uma assistência intensiva.

O tratamento do quadro de surto psicótico é definido a partir da avaliação de um profissional especializado, que irá identificar aspectos como hereditariedade, assim como eventos estressores ou fragilidades emocionais próprias do paciente, algo que possa ter desencadeado o surto. Estabelecido o diagnóstico, é possível definir o melhor tratamento para o indivíduo.

“Quanto mais cedo a gente intervém num processo patológico, mais chance temos de recuperar a pessoa e evitar tragédias. A dificuldade é aceitar a ideia de levar o familiar para o tratamento com um profissional de saúde mental, reconhecendo que ele pode estar com desequilíbrio mental. A tendência é negar a existência da doença mental”, alerta o psiquiatra.

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