junho 13, 2021

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Nós, torcedores, merecemos mais

*Por Darino Sena

Se você acha que jornalista não tem direito a torcer por um clube, pode parar a leitura. Sábado, fui pra arquibancada com a camisa do Bahia. Se você pode ir para o estádio com a camisa do seu time, por que eu não posso? Ah, tá. Você não trabalha com futebol. Só lamento… Você não sabe o que está perdendo.

Meu sentimento não interfere na minha capacidade crítica. Se você discorda, não me leia, não me assista e não me ouça. É um direito seu. Mas cansei de me esconder. Torcer não é ofensa, contanto que, na, minha profissão, se faça isso no lugar certo. Não fosse a paixão de torcedor, como eu teria virado jornalista esportivo? Como amar o futebol e não ter um time? Como ter nascido em Salvador e não ser Bahia ou Vitória? Chega de hipocrisia, na moral. Penitencio-me por minha omissão nos últimos anos. E peço desculpas.
Na TV, no rádio e aqui nunca misturei as coisas. Trabalho não é lugar de torcer. Tanto é que já tive perrengues públicos com personagens tricolores. Cobrei o então diretor Paulo Angioni, aqui no Correio, em 2012, e ganhei nota de repúdio no site oficial do Bahia. Chamei de ultrapassado o então técnico Joel Santana, em entrevista na TV, em 2013, e ele soltou os cachorros pra cima de mim. No dia seguinte, Joel levou de sete no BAVI e foi demitido. Critiquei o atual presidente Marcelo Sant’Ana e ele parou de falar comigo. 
Meus posicionamentos não geraram entreveros somente no Fazendão. Alexi Portela já me ligou para reclamar. Carlos Falcão ficou irritado quando o indaguei se vestir camisa com os dizeres “com o Vitória em qualquer divisão” não era marketing da derrota, minutos depois do rebaixamento, em 2014. Anderson Barros até hoje se recusa a me dar entrevista. Renato Cajá, quando no Leão, me acusou de persegui-lo por eu ser tricolor.
Não uso minhas tribunas para torcer – e repudio quem o faz. Uso-as para fazer o que meus empregadores esperam de mim – emito minha opinião. E ela não tem cores. Nem conveniência clubística. Contrariar é do jogo. Comentarista que tem medo de divergir e, eventualmente, se indispor, já nasceu morto. 
Feito o desabafo, para quem chegou até aqui na leitura, queria voltar ao início do texto. Fui para Fonte com a camisa tricolor. A listrada, minha preferida. Não ia para arquibancada há pelo menos seis anos. Período em que trabalhei nas retas finais dos campeonatos. Desta vez, estava de folga, e fui torcer. Decidi que merecia. E não me arrependi. 
Menos pelo resultado que deixou meu time a um ponto da elite. Mais por reviver a experiência. Torcer no estádio é insuperável. A resenha com os desconhecidos. Os xingamentos em alto e bom som. Os abraços de alívio depois do gol salvador no final. Ver sem se preocupar em analisar. Só em vibrar e, obviamente, controlar a temperatura da cerveja. Sem uma gelada, é difícil aturar esse Bahia. Minha surpresa é que esta é uma opinião compartilhada pela esmagadora maioria – apesar de muito perto do acesso, o time de Guto Ferreira não convence. A constatação, porém, não impediu a massa, nem a mim, de apoiar, incondicionalmente. Apesar do sofrimento. 
Foi assim na Fonte, foi assim no Barradão. Mais de 22 mil corações empurraram o Vitória na goleada sobre o Figueira. Que deixou o Leão e o Ba-Vi mais próximos da primeira divisão. Apesar do sofrimento, também companheiro inseparável dos rubro-negros neste campeonato.
O fim do ano está muito perto de chegar e trazer com ele o alívio. Que a permanência de um e o acesso do outro só não tragam acomodação. Lembrem-se do sofrimento. E também do show em nossas arquibancadas no final de semana passado. E não perca a consciência de que você, torcedor baiano, é digno de muito mais que apenas ser coadjuvante na elite. Torcer é massa. Torcer por grandes conquistas é melhor. Nós, torcedores, merecemos mais. 

*Darino Sena é jornalista e escreve às terças-feiras

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