outubro 17, 2019

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Sem Huck, jogo eleitoral se afunila em torno de nomes tradicionais

Sem Huck, jogo eleitoral se afunila em torno de nomes tradicionais

A desistência do apresentador Luciano Huck de disputar a eleição presidencial expôs a dificuldade de se construir uma candidatura outsider no país, apesar do apelo popular por nomes de fora da política. O jogo eleitoral afunilou em torno dos partidos tradicionais. PSDB, PT, PMDB e DEM tiraram o dia seguinte ao anúncio de Huck para reavaliar cenários e estudar como ocupar o espaço deixado pelo apresentador.

Huck chegou a 8% da preferência do eleitorado na última pesquisa Datafolha, divulgada este mês. Depois dele, a única candidatura outsider cogitada para 2018 é a do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa. Entretanto, as negociações do magistrado com o PSB patinam e estão a cada dia mais perto de um desfecho como o de Huck.

Ex-ministro Ciro Gomes desafia Sérgio Moro em vídeo – Reprodução

A disputa para o Planalto se encaminha para uma reedição de pleitos anteriores, cujos protagonistas serão candidatos veteranos, como o ex-presidente Lula, caso se livre da impugnação causada pela condenação em segunda instância, a senadora Marina Silva, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e até o senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello. Para o cientista político Alberto Almeida, autor dos livros “A cabeça do brasileiro” e “A cabeça do eleitor”, a saída de Huck evidencia como é difícil no sistema político brasileiro colocar de pé a campanha de alguém que não está acostumado com a política.

A relação do público com o apresentador de TV e com o político é totalmente diferente. Quem entra na carreira política está acostumado com a pressão o tempo todo, com sua vida devassada. O artista só é aplaudido. Surgiram na imprensa denúncias contra Huck. Coisas como essas fazem o novo ficar rapidamente envelhecido.

A ex-senadora Marina Silva – Pedro Kirilos / Agência O Globo / 7-6-16

O cientista político do Insper Carlos Melo destaca, entretanto, que o eleitor ávido por um nome que seja novidade continua existindo. É esse vácuo deixado por Huck que os grandes partidos tentarão ocupar.

— O eleitor continua perdido, esse vazio vai continuar. Esse candidato do centro vai ter que disputar contra o desalento. Hoje, o que as pesquisas mostram é que ainda há espaço para um outsider. O que falta é esse personagem.

Numa eleição que hoje aparece polarizada entre Lula, representando a esquerda, e o deputado Jair Bolsonaro como líder de um discurso conservador, Alckmin respirou aliviado com a desistência de Huck. Ele é o nome da força política de centro mais bem colocado nas pesquisas, mas ainda não tem garantia de que haverá uma candidatura única desse grupo.

No caminho do tucano reapareceram o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), animado com o espaço aberto por Huck, e, um pouco mais distante, o presidente Michel Temer, que ainda não descartou totalmente uma candidatura à reeleição, especulação que ganhou ainda mais força ontem, depois que o presidente decidiu decretar intervenção no Rio de Janeiro.

A saída de Huck também tem um efeito colateral para Geraldo Alckmin. Sem a concorrência do apresentador, ele passará a ser ainda mais pressionado a ter resultados melhores nas pesquisas de intenções de voto. Hoje, o governador paulista oscila entre 6% e 11%, conforme o cenário avaliado.

— Tudo tem seu tempo — afirmou Alckmin ontem ao ser perguntado se gostaria do apoio do apresentador na eleição.

Pretendentes a herdeiros dos órfãos de Huck, o governador paulista e Rodrigo Maia lamentaram publicamente a desistência do apresentador, embora nos bastidores tenham festejado.

— Nunca é bom alguém deixar de ser candidato. Eu entendo a política de forma diferente, nós devemos estimular novas lideranças, não desestimular. Mas é uma decisão pessoal — disse o pré-candidato tucano.

Em café da manhã com jornalistas, o presidente da Câmara voltou a usar a metáfora de que há uma “avenida aberta” com a saída de Luciano Huck.

— Luciano seria um ótimo candidato, sempre gostou da política. A grande mudança é o fim do ciclo PT e PSDB, e a volta das pessoas querendo participar do debate. Que há uma avenida aberta sem carros na frente, há, e para todo mundo — avaliou Maia.

PETISTAS DEMONSTRAM ALÍVIO

Aliados de Lula também reagiram com alívio à desistência de Huck. Para dirigentes do partido, a decisão do apresentador beneficia o petista. Eles acreditam que Huck seria o único candidato capaz de disputar votos com o ex-presidente no eleitorado popular.

— A saída dele é boa para nós. Ele (Huck) reunia elementos importantes para entrar no eleitorado de periferia e para tentar substituir a esperança que o Lula representa — afirma um dirigente do partido.

Para o PT, os adversários terão dificuldades em encontrar um candidato com o perfil do apresentador.

— Nenhuma das outras candidaturas ameaçaria Lula tanto quanto a de Huck. Ele tem esse perfil de benfeitor, além disso é um cara sem passado na política e ainda com entrada nessa área de periferia — complementa outro dirigente da legenda, reservadamente.

O PPS, que negociava uma filiação de Huck, tem agora que se definir entre uma candidatura própria, com o senador Cristovam Buarque, ou o apoio a Alckmin. Em março, no congresso da sigla, a tendência deverá ficar mais clara.

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