Texto por: Dra. Alane Gomes.
Sobrecarga de cuidados, violência doméstica e desigualdades estruturais colocam a saúde mental das mulheres no centro dos debates durante a campanha de prevenção ao suicídio (setembro amarelo).
O mês de setembro é amplamente associado à campanha “setembro Amarelo”, criada para conscientizar a população sobre a importância da prevenção ao suicídio e do cuidado com a saúde mental. Contudo, ao ampliarmoso debate sob a perspectiva social e de gênero, torna-se indispensável vincular o sofrimento psíquico à garantia de direitos básicos e à dignidade das mulheres. Em municípios como Lauro de Freitas e em todo o Brasil, os índices de transtornos de ansiedade e depressão entre o público feminino refletem fatores estruturais, como a violência de gênero, a vulnerabilidade econômica e a sobrecarga de trabalho dentro e fora de casa.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que a depressão é cerca de 50% mais prevalente entre as mulheres do que entre os homens em nível global. No Brasil, o Boletim Epidemiológico nº 33 do Ministério da Saúde (2021) revelou que, embora a mortalidade por suicídio seja proporcionalmente maior entre os homens devido à letalidade dos métodos empregados, as mulheres respondem por quase 70% das notificações de lesão autoprovocada e tentativas de suicídio registradas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).
As pressões cotidianas enfrentadas pelas mulheres impactam diretamente sua estabilidade emocional e sua capacidade de buscar auxílio em momentos de crise.
A violência doméstica e familiar é um dos principais causadores do sofrimento psíquico feminino. Segundo o 17º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2023), do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Brasil registrou aumentos em todas as formas de violência contra a mulher, ultrapassando 245 mil casos de agressão por violência doméstica e mais de 613 mil registros de ameaça.
Estudos da própria OMS indicam que mulheres expostas à violência por parceiro íntimo têm quase o dobro de probabilidade de desenvolver depressão e distúrbios de ansiedade em comparação com aquelas que não sofreram abusos. Em muitos casos, o isolamento imposto pelo agressor e a ausência de rede de apoio agravam a sensação de desamparo, inviabilizando o tratamento psicológico precoce.
Outro elemento decisivo para o esgotamento mental feminino é a divisão desigual do trabalho doméstico. Conforme a pesquisa “Outras Formas de Trabalho”, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base na PNAD Contínua (2022), as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, contra 11,7 horas dedicadas pelos homens.
Essa jornada invisível, somada às responsabilidades do emprego formal ou informal, resulta na chamada sobrecarga mental (ou síndrome de burnout parental/doméstico), reduzindo o tempo para descanso, lazer e autocuidado.
Para enfrentar essa realidade, a conscientização deve vir acompanhada do fortalecimento dos serviços públicos integrados de saúde, assistência social e proteção aos direitos das mulheres. Em Lauro de Freitas, a rede de atenção básica e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) desempenham papel central no acolhimento de casos de sofrimento psíquico, atuando em conjunto com equipamentos como o Centro de Referência e Atendimento à Mulher (CRAM) e as unidades do CRAS e CREAS.
Para situações emergenciais e apoio emocional gratuito, a população conta com o Centro de Valorização da Vida (CVV), acessível pelo telefone 188, com atendimento 24 horas. Em casos de violência doméstica, as denúncias e orientações podem ser feitas pela Central de Atendimento à Mulher, no número 180, ou diretamente nas delegacias especializadas e canais de segurança locais.
Fontes e Referências Utilizadas:
1. Organização Mundial da Saúde (OMS): Relatório Mundial de Saúde Mental (World Mental Health Report: Transforming mental health for all, 2022) e dados sobre violência contra a mulher e saúde mental.
2. Ministério da Saúde (Brasil): Boletim Epidemiológico nº 33 (Volume 52, 2021) – Mortalidade por suicídio e notificações de lesões autoprovocadas no Brasil. ehttps://setembroamarelo.org.br/
3. Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP): 17º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2023).
4. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – Módulo Outras Formas de Trabalho (2022).






